Notícias de 2004  
» Empresas dos EUA buscam canais formais de remessa
Valor Econômico – 03/09

Operação de prisão de doleiros da PF assusta firmas que enviavam recursos pelo paralelo.

Por Cristiane Perini Lucchesi

A operação "Farol da Colina" da Polícia Federal, que resultou na prisão de 62 doleiros e seus ajudantes há cerca de duas semanas, assustou empresas que fazem remessas de recursos dos Estados Unidos ao Brasil pelo mercado paralelo de câmbio. Preocupadas em ver sua imagem arranhada junto a seus clientes e ao governo americano, essas empresas saíram em busca de canais legais para enviar o dinheiro.

O Banco Rendimento, que faz desde março remessas por vias legais - com registro no Banco Central -, em parceria com empresa americana, a Uno, fechou mais dois contratos, um com a Trans-fast e outro com a South Exchange, nos últimos 15 dias, conta Roger Ades, gerente de produtos. Hoje, o banco já executa remessas de US$ 200 mil por dia. "Estamos em negociação com mais três empresas, que vieram nos procurar após a operação da PF", revela.

O americano Steve Murphy está nesta semana no Brasil justamente a pedido de algumas dessas empresas de remessas americanas, no que ele definiu como uma "minimissão" em busca dos caminhos legais das remessas. "Empresas idôneas e legais nos Estados Unidos não conhecem quem realmente opera na legalidade e quem não opera no Brasil. É preciso ver de perto, encontrar canais legais para essas empresas dos EUA", afirma.

A pedido da Trans-fast, Intertransfers, Vigo, Uno e Viamericas, Murphy visitou o Banco Rendimento e o Banco Paulista, que, em parceira com a Horizonte Transfers, também criou um sistema legal de remessas. Ele elogiou os dois bancos. "Estou dando meu sinal amarelo para verde", brincou, em entrevista ao Valor. Murphy Também visitou o diretor de normas do Banco Central, Sérgio Darcy.

Segundo Murphy, as principais empresas de remessas americanas estão cada vez mais preocupadas com sua imagem, principalmente depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. O Patriot Act, que visa evitar a lavagem de dinheiro e as remessas de recursos para financiar o terrorismo, exige cada vez mais cuidado das empresas americanas na hora de fazer remessas. As que pretendem manter um bom nome e atuam por meio dos canais formais nos demais países querem fazer o mesmo no Brasil.

O representante da associação das empresas de remessas americanas, David Landsman, reclama dos grandes bancos brasileiros, que, segundo ele, fecham parcerias com uma só empresa de remessas, impedindo as outras de ter acesso aos canais formais e reduzindo a concorrência. "Somos empresas legais e gostaríamos muito de ter acesso aos principais bancos do Brasil", diz.

O Bradesco faz remessas dos Estados Unidos ao Brasil por meio do Bank of America. O Itaú tem parceria com a empresa de remessas Moneygram e o Banco do Brasil, com a Western Union. Mas são os próprios brasileiros que acabam muitas vezes preferindo enviar seus recursos pelo paralelo às suas famílias. Além das tarifas muitas vezes menores cobradas pelas empresas de remessas, a cotação do dólar paralelo é mais vantajosa do que a do dólar por vias oficiais.

Ontem, por exemplo, no momento do fechamento do mercado, o dólar paralelo estava a R$ 3,16, contra R$ 2,94 do dólar oficial. Ou seja, para cada US$ 100 enviados no paralelo, a família no Brasil receberia R$ 316, contra os R$ 294 do dólar oficial.

Estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostra que a remessa média do brasileiro ao país é de US$ 428. O mesmo estudo mostra que os brasileiros residentes no exterior enviam ao país US$ 5,4 bilhões por ano. Mas, o volume de remessas no ano passado registrado no Banco Central foi de US$ 2,9 bilhões. Isso quer dizer que 46,3% do total chegam ao país de maneira ilegal.

As empresas de remessas americanas que passam a enviar recursos pelo dólar oficial temem perder mercado para as que atuam com o dólar paralelo. Mas, após a ação da PF, muitas preferem correr o risco de perder mercado a ver sua imagem vinculada à sonegação fiscal ou lavagem de dinheiro.

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