Operação
de prisão de doleiros da PF assusta firmas que
enviavam recursos pelo paralelo.
Por Cristiane Perini Lucchesi
A operação "Farol da Colina"
da Polícia Federal, que resultou na prisão
de 62 doleiros e seus ajudantes há cerca de duas
semanas, assustou empresas que fazem remessas de recursos
dos Estados Unidos ao Brasil pelo mercado paralelo de
câmbio. Preocupadas em ver sua imagem arranhada
junto a seus clientes e ao governo americano, essas
empresas saíram em busca de canais legais para
enviar o dinheiro.
O Banco Rendimento,
que faz desde março remessas por vias legais
- com registro no Banco Central -, em parceria com empresa
americana, a Uno, fechou mais dois contratos, um com
a Trans-fast e outro com a South Exchange, nos últimos
15 dias, conta Roger Ades, gerente de produtos. Hoje,
o banco já executa remessas de US$ 200 mil por
dia. "Estamos em negociação com mais
três empresas, que vieram nos procurar após
a operação da PF", revela.
O americano Steve Murphy está nesta semana no
Brasil justamente a pedido de algumas dessas empresas
de remessas americanas, no que ele definiu como uma
"minimissão" em busca dos caminhos
legais das remessas. "Empresas idôneas e
legais nos Estados Unidos não conhecem quem realmente
opera na legalidade e quem não opera no Brasil.
É preciso ver de perto, encontrar canais legais
para essas empresas dos EUA", afirma.
A pedido da Trans-fast, Intertransfers, Vigo, Uno e
Viamericas, Murphy visitou o Banco
Rendimento e o Banco Paulista, que, em parceira
com a Horizonte Transfers, também criou um sistema
legal de remessas. Ele elogiou os dois bancos. "Estou
dando meu sinal amarelo para verde", brincou, em
entrevista ao Valor. Murphy Também visitou o
diretor de normas do Banco Central, Sérgio Darcy.
Segundo Murphy, as principais empresas de remessas
americanas estão cada vez mais preocupadas com
sua imagem, principalmente depois dos atentados terroristas
de 11 de setembro de 2001. O Patriot Act, que visa evitar
a lavagem de dinheiro e as remessas de recursos para
financiar o terrorismo, exige cada vez mais cuidado
das empresas americanas na hora de fazer remessas. As
que pretendem manter um bom nome e atuam por meio dos
canais formais nos demais países querem fazer
o mesmo no Brasil.
O representante da associação das empresas
de remessas americanas, David Landsman, reclama dos
grandes bancos brasileiros, que, segundo ele, fecham
parcerias com uma só empresa de remessas, impedindo
as outras de ter acesso aos canais formais e reduzindo
a concorrência. "Somos empresas legais e
gostaríamos muito de ter acesso aos principais
bancos do Brasil", diz.
O Bradesco faz remessas dos Estados Unidos ao Brasil
por meio do Bank of America. O Itaú tem parceria
com a empresa de remessas Moneygram e o Banco do Brasil,
com a Western Union. Mas são os próprios
brasileiros que acabam muitas vezes preferindo enviar
seus recursos pelo paralelo às suas famílias.
Além das tarifas muitas vezes menores cobradas
pelas empresas de remessas, a cotação
do dólar paralelo é mais vantajosa do
que a do dólar por vias oficiais.
Ontem, por exemplo, no momento do fechamento do mercado,
o dólar paralelo estava a R$ 3,16, contra R$
2,94 do dólar oficial. Ou seja, para cada US$
100 enviados no paralelo, a família no Brasil
receberia R$ 316, contra os R$ 294 do dólar oficial.
Estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
mostra que a remessa média do brasileiro ao país
é de US$ 428. O mesmo estudo mostra que os brasileiros
residentes no exterior enviam ao país US$ 5,4
bilhões por ano. Mas, o volume de remessas no
ano passado registrado no Banco Central foi de US$ 2,9
bilhões. Isso quer dizer que 46,3% do total chegam
ao país de maneira ilegal.
As empresas de remessas americanas que passam a enviar
recursos pelo dólar oficial temem perder mercado
para as que atuam com o dólar paralelo. Mas,
após a ação da PF, muitas preferem
correr o risco de perder mercado a ver sua imagem vinculada
à sonegação fiscal ou lavagem de
dinheiro.
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